Se nesse momento fosse necessário atender a pedidos, eu o faria. Não é o caso. De todo modo comentarei um filme de conhecimento “mais” geral, e de que gosto… mas pensando mais na trilha sonora e refletindo mais especificamente sobre uma de suas boas músicas: Somewhere Over the Rainbow. Em “Como Se Fosse a Primeira Vez” (50 First Dates, 2004), o divertido Adam Sandler (no papel de Henry) e a bela Drew Barrymore (no papel de Lucy) – ambos no superlativo – promovem uma comédia romântica água-com-açúcar de bom gosto. Lucy tem sua memória recente afetada depois de um acidente de carro, passando a repetir, todos os dias, o mesmo dia. A função do apaixonado Henry, então, é conquistá-la diariamente. O que se destaca não é tanto sua capacidade inventiva de conseguir tamanha proeza, mas sim o fato de não cansar nunca de tentá-la. Que bom: tudo dá certo no final.
Só que este texto traz em seu título a palavra “quase”, carregada de significados e engaiolada por aspas subjetivas. É que não é a primeira vez que a música citada é utilizada (nesse filme, apenas ganha uma roupagem havaiana), bem como não é a primeira vez que vemos um enredo florido/afrodisíaco que nos leva a uma conclusão feliz. E muito mais do que pela quinquagésima vez, a personagem Dorothy, de “O Mágico de Oz” (The Wizard Oz, 1939), surge para que tomemos – desta vez – a liberdade de nos opormos sobre o que Judy Garland cantarolou em 1939, uma vez que não, nem acima do arco-íris, bem lá no alto, não, os sonhos que escutamos numa canção de ninar não podem se tornar realidade, tampouco os problemas podem derreter como dropes de limão. Não, ninguém pode voar com os pássaros azuis, estar acima das estrelas ou em algum protegido topo de chaminé. Até que adoro a parte em que a canção diz: “os sonhos que você ousou [ou se atreveu] ter”, infelizmente porque hoje entendo ser uma ousadia, um atrevimento contra as regras estipuladas no compêndio da vida real (exposto também na cartilha resumida sobre a mesma).
Sabe por que você não pode, “Dorothy”? Porque tanto a camisa rosa de Lucy, a bruxa boazinha, a casa de waffles, a estrada de tijolos de ouro, a aventura de investir em alguém que nunca desista de nós, tratam-se apenas de um placebo. O Homem de Lata, o Espantalho e o Leão desejam possuir, respectivamente: coração, cérebro e coragem. É preciso avisar que o que eles querem, um dia, quando você estiver maior, acredite-me, será roubado justamente de você. Com o peito vazio, sem pensar direito, morrendo de medo, você buscará refúgios completamente inúteis ao perceber que ninguém se importa se você desaprendeu aquela dancinha charmosa. É provável que você recorra a imaginação, tão aplaudida no post abaixo. Minha bela, após seus 30 anos de idade faça como bem quiser, afinal as ilusões que vão sobrar serão bem poucas. Divirta-se com os “quases” da vida, faça escárnio deles, venda as sapatilhas vermelhas, compre o filme “Como Se Fosse a Primeira Vez”, cometa as trelas mais infames.
Estejam avisados – todos os personagens – sobre a realidade: só “o amor é filme” (obrigado Lirinha), a vida não é filme! E ela não é cheia de amor, não mesmo, ela oscila entre desesperos, injustiças, agressões, culpas – inventadas ou legítimas -, fracassos, esperanças vãs, melindres, ódios irremediáveis, além de enormes ausências de paixões. “A vida não é uma canção”, o êxito de sua infância terminará quando você, Dorothy, deixar de perdoar o próprio Deus ao ver que seus sonhos foram assassinados (ver letra de Les Miserables). A vida é um texto duro e sem fotos, como este, talvez, que tem a petulância de se colocar entre os demais, com todo o pessimismo possível… e que por pouco convence até o próprio autor de tudo que escreveu. Quase, menino, quase! Mas a quem enganar? O filme do título deste post reprisa praticamente todos os dias na TV fechada e você o assiste todas as vezes como se fosse a primeira vez.
Por isso apenas vá, bela, fique sem tomar banho por quatro meses, embebede-se com dez garrafas de vodka barata uma semana inteira, maldiga o cosmos, mutile seu corpo para que sua mente doa menos, chore sozinha nos bueiros mais humilhantes, não seja modesta em seu sofrimento, agrida a humanidade com a pior parte de você mesma, exiba sua morbidez sem pudores, tome calmantes e durma três dias seguidos, olhe-se no espelho e se ache a pessoa mais feia e desprovida de boas qualidades do mundo (afinal, só há testemunhas quando fazemos coisas ruins), inveje os casais de mãos dadas atravessando as ruas ou olhando vitrines pelo shopping, exponha-se cruelmente (tal qual Drummond) nas livrarias, seja íntima da poeira e dos piores sentimentos, sinta ódio de Lucy e Henry, desabafe com sua pior inimiga, entregue-se à melancolia dos dias, finja-se de morta, irrite seus entes queridos… faça terapia!
Depois volte! Estaremos esperando, você será sempre bem-vinda, entenderemos suas cicatrizes e não julgaremos seus hábitos (momentâneos ou constantes). Seu talento em se fazer de “preto-e-branco” e “colorida” não se esquece, você também é a pausa da respiração enquanto canta para que seu mistério seja compartilhado por todos nós. É muito bom saber que você também diz péssimas coisas, num rompante, quando quer dizer seus exatos antônimos. Em algum lugar, acima do arco-íris, é injusto para nós quatro ou nós todos porque nos deixa muito distantes. Absolva o casal do filme supracitado, não tenha pressa, veja conosco como a palavra “quase” reserva o tanto de falibilidade equivalente ao tanto de facticidade. Sorrindo ou chorando, humanamente abaixo do arco-íris, nós o faremos juntos… o cinema é a maior contradição.