Cine Clube Jaqueira Convida para exibição de curtas premiados no CINE PE 2010

Posted by ianatoni on segunda-feira jul 26, 2010 Under Eventos

Olá a todos! Nossa amiga Silvana Marpoara avisa que o Cine Clube Livraria Jaqueira  apresenta nesta sexta feira, dia 30 de julho os curtas premiados no Cine PE 2010: Bailão e Amigos Bizarros do Ricardinho. A sessão começa às 18h30 e a entrada é franca.

Bailão tem 15 min e foi produzido em São Paulo por Marcelo Caetano, recebeu o premio de melhor curta metragem e apresenta a memória de uma geração visitada por seus personagens. O cenário é o centro de uma grande cidade; o enredo a urgência da vida. E o Bailão o ponto de convergência dessas histórias.

Amigos Bizarros de Ricardinho, de Augusto Canani é uma produção gaúcha com 20 minutos. Conta a história de um rapaz levado ao limite da tensão em um ambiente corporativo. Quando essa crise torna-se insustentável, ele desenvolve uma reação estranha: narra aos seus colegas as pequenas e insólitas histórias de seus amigos e familiares na cidade-satélite de Viamão, na grande Porto Alegre.O curta foi exibido nos Estados Unidos, na programação do festival de novos diretores, promovido pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, em 2009.

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O Cine Clube Livraria Jaqueira fica na Livraria Jaqueira, claro, Rua Antenor Navarro, 138. telefone para contato: 3265-9455. Fale a pena conferir.

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E sobem os créditos…

Posted by Zadoque Filho on terça-feira jul 13, 2010 Under Em pauta

CinemaNo teatro costuma-se dizer: “cai o pano”, ao término de uma peça. De certa forma este post se refere a algo semelhante. Mas ao contrário de como para aquele a quem dizem “aqui jaz fulano”, a ficção não precisa de tanta dramaticidade – nem a vida (?). Agora já não se trata de suspense, comédia, romance, terror, drama, ou qualquer que seja o gênero, mesmo que o elogio aqui realizado seja ao cinema como um todo e isso inclua todas as possibilidades de prateleiras. Prefiro assim, eis o réquiem: sabiam, os irmãos Auguste e Louis Lumière, que sua invenção contribuiria tanto para a posterioridade? Sabiam dos trajes clássicos que por muito tempo a platéia usaria, das moedas sem troco de jovens ansiosos na bilheteria, das teorias pensadas por renomados autores de diversas áreas da Academia Universitária, das pessoas colecionando ingressos, dos Cine Clubes criados, da expectativa pelo beijo no final da trama, da aglomeração nas filas para (re)verem o que um dia não passou de “fotografia em movimento”?

Lumière Não precisavam saber. Assustaram os primeiros expectadores historicamente formais com a exibição de simples trabalhadores e de um trem que, de supetão, fez a platéia se levantar das cadeiras com medo de que o mesmo saísse da tela e a atropelasse. Nenhum de nós esteve lá, no dia 28 de Setembro de 1895, mas é fácil imaginar a euforia dos irmãos em seus risos no canto da boca pelo sucesso da mais fantástica magia realizada e tão apurada século XX adentro – aliás, não à toa Georges Méliès, também pioneiro no cinematógrafo, era ilusionista. Todos os movimentos artísticos fizeram uso do cinema, todos os sentimentos humanos foram expostos na telona, todos quiseram ser partícipes do novo mídia. Os melhores heróis e os piores vilões (e o contrário também) ganharam rostos “apaixonantes”. Quem nunca se encolheu na poltrona ao ver um filme, quem nunca se identificou com os problemas e soluções dos personagens exibidos, quem nunca chorou copiosamente ou gargalhou espalhafatosamente no meio de totais desconhecidos, quem nunca sentiu o coração apertado quando os créditos começam a subir e precisamos voltar ao mundo real?

cinemaMais, mais do que isso, quem nunca foi os personagens de Audrey Hepburn, James Stuart, Hillary Swank, Tom Cruise, Jodie Foster, Bruce Willis, Ava Gardner, Gregory Peck, Natalie Portman, Mel Gibson, Kirsten Dunst, Tim Robbins, Julie Andrews, Humphrey Bogart, Elizabeth Taylor, Tom Hanks, Ingrid Bergman, Jerry Lewis, Grace Kelly, John Travolta, Meryl Streep, Edward Norton, Julia Roberts, Harrison Ford, Woopi Goldberg, Jude Law, Cate Blanchet, Robin Williams, Linda Blair, Raplh Fienes, Scarlett Johasson, Marlon Brando, entre outros, tantos outros, e está aí sentado, neste momento, ainda sendo um pouco de cada um deles? Quem não tem uma lembrança cinematográfica vinculada a um momento de vida? Quem não tem na memória a trilha sonora de filmes marcantes? Desconheço essa “entidade”, inclusive me recusaria a conhecê-la, porque não fomos uma vez única o público que se inquietou na cadeira e se deixou levar pelo que assistia. Somos, ainda hoje, como para sempre seremos, emocionalmente atropelados pelo trem dos irmãos Lumière e dos diretores, músicos, roteiristas, atores, de todas as nacionalidades, que sabem quem somos e fazem o melhor uso desse conhecimento.

Viagem à LuaOs créditos finais estão quase subindo, indício de que é chegada a hora de ir embora. Se “cai o pano” é apenas porque essa relação cinema-espectador precisa de um breve espaço de tempo para que uma próxima sessão comece. Depois de tantas interrogações, algumas ousadas afirmações se mostram pertinentes. “A arte não imita a vida”, a arte a recria, cotidianamente, sem os pudores, apenas em suposição, politicamente corretos de esconder defeitos, ou enfeitar ainda mais boas qualidades humanas; assim como é detentora do molde adequado para nos fazer lembrar com lucidez os papéis que desempenhamos na sociedade. Sem afetações, o ponto final deste texto será o meu último. Há um mundo inteiro de boas sensações para serem sentidas, há incontáveis filmes para serem revistos ou vistos pela primeira vez em diversas salas de exibição. Assim colocado, que o “The End” tenha a função de um convite para que todos agucem sua sensibilidade e continuamente se reconheçam nos próximos filmes a que assistirem.

The End Charles Chaplin, entre tantos silêncios e verbalizações, certa vez disse que “o humor desperta o nosso sentido de sobrevivência e preserva nossa saúde mental”. Eu concordo. Mas antes do final, uma espécie de aperitivo do filme que seria comentado em seguida, “A Bela e a Fera” (Beauty and the Beast, 1991), se faz necessário. Sem elogios exagerados, o primeiro desenho indicado ao Oscar de melhor filme é para aqueles que percebem a delicadeza de pequenos gestos, como a Fera presenteando a Bela com sua biblioteca cheia de livros… e a Bela comendo sem usar talheres para não constranger a Fera em sua clara dificuldade: link. Outra faceta do cinema, platéias atentas também costumam aplaudir bons filmes, como se os aplausos pudessem ser escutados pelos seus realizadores. Por isso é bom desconfiar de quem não se comove com as cenas aqui indicadas ou com manifestações tão espontâneas assim. Só que essa “conversa” fica para depois, talvez em outro ambiente. Sem mais, eu digito o ponto final: ponto.

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“Lisbela e o Prisioneiro” (Guel Arraes)

Posted by Zadoque Filho on segunda-feira jul 5, 2010 Under Em pauta

Lisbela e o PrisioneiroExtraordinário. Antes do que segue, o link deve ser visto: link. Como Guel Arraes consegue? Todos viram? Todos viram como ele faz com que os personagens da “tela do cinema” olhem para os protagonistas do filme a que de fato assistimos? Todos escutaram o tom de voz, o sotaque durante as falas, as metáforas regionais, uma das músicas usadas, o enredo se construindo entre o cinema e o ato de fazer cinema? Agora, com calma, então, podemos continuar. Guel Arraes é poderoso, faz o que faz com o olhar de quem sabe precisamente o que é gostar de cinema: vejam outro link. Adaptado da peça de Osman Lins, Arraes dirige a comédia romântica “Lisbela e o Prisioneiro” (2003) utilizando de todos os recursos (trilha sonora, metalinguagem, simplicidade, atuações de peso dos inquestionáveis Selton Mello, Débora Falabella, Marco Nanini, Bruno Garcia) para mostrar – escancarar – que nós também fazemos bom cinema.

Cena FinalAdjetivos positivos saem facilmente. Elza Soares impressiona ao revisitar a música Espumas ao Vento com sua garganta privilegiada e vibrante. Mais, bem mais, ela declama a letra tão interpretada por Fagner com uma dor inédita e justificavelmente exagerada. Caetano Veloso destrói/reconstrói as caixas acústicas das salas de exibições cinematográficas com sua pergunta: “agora… que faço eu da vida sem você?”. Los Hermanos também figuram lá, assim como Geraldo Maia e A Deusa da Minha Rua. Lirinha, de O Cordel do Fogo Encantado, berra para que todos saibamos que o amor é filme… e é bom. Esse é o cinema que conhece o cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama, confessa que Deus é espectador, conversa conosco o tempo inteiro num exercício impiedoso de mostrar que sabe quem somos e de explorar cada espaço de nosso imaginário sem deixar que a realidade se transforme num horizonte em fuga. Guel Arraes é dinâmico, entende, como poucos, o valor das frases pronunciadas, a dose adequada de humor, o jeitinho nordestino, os estereótipos corretos, o melhor caminho para “dialogar” com quem assiste ao seu filme.

LisbelaDesde a estréia, “Lisbela e o Prisioneiro” sabia que espectadores ficariam sentados nas suas poltronas mesmo depois de subirem os créditos, impactados, chorosos, letárgicos, apaixonados. Com parte das filmagens realizada aqui no Pátio de Santa Cruz, conhecer o elenco foi fácil. Cenas bem-humoradas filmadas com total seriedade, atores compenetrados, refeições numa espécie de galpão improvisado, figurantes inquietos, a cena em que Leléu e Frederico se descobrem como tal e qual e eu pude ver por detrás das câmeras (será que ver Mello e Nanini encenando conta algum tijolo na casinha do céu?), e um gênio daquilo que é nosso cinema. Às favas para com a modéstia ou alusões sobre o cinema internacional: nós sabemos ser ótimos. Avisem a Arraes que cantarolamos a trilha sonora escolhida ainda hoje com a mesma empolgação e nos emocionamos com seu filme porque ele é ótimo, não por uma comum tendência ao drama em que quase tudo termina sendo na vida.

Leléu e Lisbela Lisbela faz uma das melhores descrições sobre o que é estar numa sala de exibição cinematográfica. Al Pacino, em “Um Dia Para Relembrar” (Two Bits, 1995), estava certo: “o paraíso é igualzinho ao La Paloma” (a saber, o La Paloma é um cinema). A mocinha comove através de seu ar inocente com a mesma eficiência que o faz através de sua bombástica coragem: ela é capaz de dizer que sempre atenderá – como um cachorrinho – quando o amor a chamar, ela torna as cenas mais simples em cenas épicas quando está com Leléu. As certezas inabaláveis desse último, inclusive, vêm de saber fazer um momento ser tão bom que se pode comemorá-lo pelo resto da vida. Que adorável! O filme é assim… aceitamos de bom grado até o matador Frederico, posto que “se o próprio Deus quis que a morte fosse certa, deveria tomá-lo como um aliado seu”. Lembrando tudo isso, assim de uma só vez, é preciso dizer que saímos mais felizes depois da sessão de cinema. A cumplicidade filme-espectador promovida pela estética usada por Arraes funciona. Nós estamos lá, exibidos no telão, e o enredo fica em nós pelo tanto de “sempre” que desejarmos conferir à palavra.

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Recife recebe mostra de filmes venezuelanos

Posted by ianatoni on domingo jul 4, 2010 Under Eventos

Conforme publicada no PE360º , de 5 a 10 de julho, o Consulado Geral da Venezuela promove a Semana da Venezuela no Recife. O evento é para comemorar os 200 anos do processo revolucionário e de emancipação do país, iniciado em 19 de abril de 1810. A entrada é gratuita.

São eventos para você conhecer o novo cinema venezuelano, que reflete uma visão de identidade nacional e dos valores do povo. A mostra de filmes venezuelanos será sempre às 19h, no Cinema São Luiz. Já no dia 9, a sessão será às 15h, no Consulado da Venezuela, localizado na avenidaConselheiro Aguiar, n° 597, em Boa Viagem.

Quem se apresenta durante a Semana é a cantora Cecília Todd, que representa com sensibilidade o espírito ancestral do povo latino-americano. Os shows são no dia 8, às 20h, no Sítio Histórico de Igarassu, e no dia 10 de julho, às 20h, no Teatro de Santa Isabel, no Recife.

CONFIRA A PROGRAMAÇÃO

Dia 5
Manuela Sáenz – A Libertadora do Libertador (2000)

De Diego Rísquez. Em 1856, em um navio baleeiro, chega a Paita o último reduto do Peru, o jovem marinheiro Herman Melville. Ao descobrir que, naquele lugar, vive Manuela Sáenz, o maior amor de Simon Bolívar, ele resolve procurá-la e conhecer a história da mulher que chocou o continente há 30 anos.

Dia 6
El Caracazo (2005)

De Román Chalbaud. Em 27 de fevereiro de 1989, uma manifestação contra o aumento do preço das passagens desencadeia protesto que chega até Caracas, provocando violenta repressão por parte do governo de Carlos A. Pérez, com centenas de vítimas. Mara Caparigua transmite seu testemunho dos fatos.

Dia 7
Zamora, terras e homens livres (2009)

De Luis Britto García. Em meados do século XIX, a polarização entre liberais e conservadores marca a agenda política da Venezuela. Camponeses e escravos vivem sob a tirania da oligarquia colonial e Ezequiel Zamora lidera luta pela distribuição equitativa das terras, marcando o fim das desigualdades sociais.

Dia 8
Miranda Regresa (2007)

De Luis Alberto Lamata. Um jovem jornalista entra na cela do general Francisco Miranda, na Caracas de 10 de julho de 1816, para que o militar lhe conceda uma entrevista. Durante o encontro, desencadeou-se uma volta ao passado, fazendo uma retrospectiva da vida daquele que é considerado o mais universal dos venezuelanos.

Dia 9
Macuro (2009)

De Hernán Jabes. Macuro, vila de pescadores do nordeste da Venezuela, é afetada por falta de energia. A comunidade procura ajuda de grande fábrica de cimento, que tem uma usina geradora. A resposta negligente da empresa provoca reação inesperada da população, acarretando consequências importantes.

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“Quase” [Como Se Fosse a Primeira Vez]

Posted by Zadoque Filho on domingo jul 4, 2010 Under Em pauta

Se nesse momento fosse necessário atender a pedidos, eu o faria. Não é o caso. De todo modo comentarei um filme de conhecimento “mais” geral, e de que gosto… mas pensando mais na trilha sonora e refletindo mais especificamente sobre uma de suas boas músicas: Somewhere Over the Rainbow. Em “Como Se Fosse a Primeira Vez” (50 First Dates, 2004), o divertido Adam Sandler (no papel de Henry) e a bela Drew Barrymore (no papel de Lucy) – ambos no superlativo – promovem uma comédia romântica água-com-açúcar de bom gosto. Lucy tem sua memória recente afetada depois de um acidente de carro, passando a repetir, todos os dias, o mesmo dia. A função do apaixonado Henry, então, é conquistá-la diariamente. O que se destaca não é tanto sua capacidade inventiva de conseguir tamanha proeza, mas sim o fato de não cansar nunca de tentá-la. Que bom: tudo dá certo no final.

Só que este texto traz em seu título a palavra “quase”, carregada de significados e engaiolada por aspas subjetivas. É que não é a primeira vez que a música citada é utilizada (nesse filme, apenas ganha uma roupagem havaiana), bem como não é a primeira vez que vemos um enredo florido/afrodisíaco que nos leva a uma conclusão feliz. E muito mais do que pela quinquagésima vez, a personagem Dorothy, de “O Mágico de Oz” (The Wizard Oz, 1939), surge para que tomemos – desta vez – a liberdade de nos opormos sobre o que Judy Garland cantarolou em 1939, uma vez que não, nem acima do arco-íris, bem lá no alto, não, os sonhos que escutamos numa canção de ninar não podem se tornar realidade, tampouco os problemas podem derreter como dropes de limão. Não, ninguém pode voar com os pássaros azuis, estar acima das estrelas ou em algum protegido topo de chaminé. Até que adoro a parte em que a canção diz: “os sonhos que você ousou [ou se atreveu] ter”, infelizmente porque hoje entendo ser uma ousadia, um atrevimento contra as regras estipuladas no compêndio da vida real (exposto também na cartilha resumida sobre a mesma).

Sabe por que você não pode, “Dorothy”? Porque tanto a camisa rosa de Lucy, a bruxa boazinha, a casa de waffles, a estrada de tijolos de ouro, a aventura de investir em alguém que nunca desista de nós, tratam-se apenas de um placebo. O Homem de Lata, o Espantalho e o Leão desejam possuir, respectivamente: coração, cérebro e coragem. É preciso avisar que o que eles querem, um dia, quando você estiver maior, acredite-me, será roubado justamente de você. Com o peito vazio, sem pensar direito, morrendo de medo, você buscará refúgios completamente inúteis ao perceber que ninguém se importa se você desaprendeu aquela dancinha charmosa. É provável que você recorra a imaginação, tão aplaudida no post abaixo. Minha bela, após seus 30 anos de idade faça como bem quiser, afinal as ilusões que vão sobrar serão bem poucas. Divirta-se com os “quases” da vida, faça escárnio deles, venda as sapatilhas vermelhas, compre o filme “Como Se Fosse a Primeira Vez”, cometa as trelas mais infames.

Estejam avisados – todos os personagens – sobre a realidade: só “o amor é filme” (obrigado Lirinha), a vida não é filme! E ela não é cheia de amor, não mesmo, ela oscila entre desesperos, injustiças, agressões, culpas – inventadas ou legítimas -, fracassos, esperanças vãs, melindres, ódios irremediáveis, além de enormes ausências de paixões.  “A vida não é uma canção”, o êxito de sua infância terminará quando você, Dorothy, deixar de perdoar o próprio Deus ao ver que seus sonhos foram assassinados (ver letra de Les Miserables).  A vida é um texto duro e sem fotos, como este, talvez, que tem a petulância de se colocar entre os demais, com todo o pessimismo possível… e que por pouco convence até o próprio autor de tudo que escreveu. Quase, menino, quase! Mas a quem enganar? O filme do título deste post reprisa praticamente todos os dias na TV fechada e você o assiste todas as vezes como se fosse a primeira vez.

Por isso apenas vá, bela, fique sem tomar banho por quatro meses, embebede-se com dez garrafas de vodka barata uma semana inteira, maldiga o cosmos, mutile seu corpo para que sua mente doa menos, chore sozinha nos bueiros mais humilhantes, não seja modesta em seu sofrimento, agrida a humanidade com a pior parte de você mesma, exiba sua morbidez sem pudores, tome calmantes e durma três dias seguidos, olhe-se no espelho e se ache a pessoa mais feia e desprovida de boas qualidades do mundo (afinal, só há testemunhas quando fazemos coisas ruins), inveje os casais de mãos dadas atravessando as ruas ou olhando vitrines pelo shopping, exponha-se cruelmente (tal qual Drummond) nas livrarias, seja íntima da poeira e dos piores sentimentos, sinta ódio de Lucy e Henry, desabafe com sua pior inimiga, entregue-se à melancolia dos dias, finja-se de morta, irrite seus entes queridos… faça terapia!

Depois volte! Estaremos esperando, você será sempre bem-vinda, entenderemos suas cicatrizes e não julgaremos seus hábitos (momentâneos ou constantes). Seu talento em se fazer de “preto-e-branco” e “colorida” não se esquece, você também é a pausa da respiração enquanto canta para que seu mistério seja compartilhado por todos nós. É muito bom saber que você também diz péssimas coisas, num rompante, quando quer dizer seus exatos antônimos. Em algum lugar, acima do arco-íris, é injusto para nós quatro ou nós todos porque nos deixa muito distantes. Absolva o casal do filme supracitado, não tenha pressa, veja conosco como a palavra “quase” reserva o tanto de falibilidade equivalente ao tanto de facticidade. Sorrindo ou chorando, humanamente abaixo do arco-íris, nós o faremos juntos… o cinema é a maior contradição.

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“Em Busca da Terra do Nunca” (Kate Winslet e Johnny Depp)

Posted by Zadoque Filho on segunda-feira jun 28, 2010 Under Em pauta

Em Busca da Terra do NuncaE então uniram ambos, Winslet e Depp, no “Em Busca da Terra do Nunca” (Finding Neverland, 2004). Baseado no livro “O Homem que era Peter Pan”, inspirado em fatos reais sobre a vida do escritor James Barrie, e dirigido por Marc Forster (do recente “O Caçador de Pipas”). Um filme sobre a vida do autor de “Peter Pan” e a concepção de seus personagens poderia cair no clichê pseudo-comovente mais tosco: o que não acontece, não mesmo. Como se não bastassem essas duas estrelas (além dos notórios Dustin Hoffman e Julie Christie), o enredo é admirável, e mais uma vez retorno aos filmes comoventes. O objetivo era evitar o gênero, mas ter lembrado deste, além de coincidentemente ter postado comentários sobre os atores recentemente – aquilo que chamam “destino” é f*** -, tornou as coisas complicadas. Forster opera um milagre cinematográfico, mescla momentos factuais com momentos imaginados pelo protagonista como um maestro que sabe a hora certa em que cada instrumento musical deve começar a tocar.

Desde o início temos uma noção de como vai ser. O jovem Peter, um dos quatro filhos da viúva Sylvia Davies (Kate Winslet), é uma criança reservada e cética, “deseja crescer logo por julgar que os adultos não sentem dor”. James Barrie (Johnny Depp), em uma de suas longas manhãs no parque da cidade, decide fazer uma apresentação “circense” para a família Davies com seu cachorro desempenhando o papel de um perigoso urso. “É apenas um cachorro”, diz Peter. O protagonista, cujo tato com crianças é indiscutivel, pondera: “aquele cachorro passou a vida inteira querendo ser um urso, não diga que ele não poder ser um”. A cena intercala a imagem da dança do personagem com seu cachorro e a imagem de um circo em que o personagem está dançando com um urso. Utilização tão constante quanto adorável no filme. Aliás, a câmera desempenha um papel muito eficaz: quando a peça final está sendo encenada, ela dá giros e faz curvas no teatro, repousa no teto, voa por cima da platéia, desconstrói nossa racionalidade… até focalizar Peter, agora já encantado com o poder da ficção (da imaginação).

ImagemDiálogos maduros, frases inesquecíveis (“crianças não deveriam dormir nunca, porque a cada manhã ficam mais velhas”), flagrantes gentis dos instantes em que o autor de “Peter Pan” pensa os personagens de seu livro. O cabo da sombrinha da mãe de Sylvia será, futuramente, o gancho do famoso Capitão Gancho; as crianças pulando na cama, saltando de uma para outra, oferece o vislumbre do vôo de que os amigos de Pan serão capazes de realizar. O filme não é a história sobre um romance (inclusive estou evitando, sem exceções, vê-los), todavia é uma história de amor muito emblemática. Amor pelo ato de escrever, amor pela infância, sobretudo amor pela imaginação. “A Terra do Nunca” está diante de nós, o tempo inteiro, ainda que não a vejamos e só possamos fazer suposições sobre a objetiva/palpável existência dela. Jan Kaczmarek compõe uma trilha sonora (vencedora do Oscar) suave e cortante, o piano nos pega desprevenidos a cada mudança de nota, é a expressão não-verbal mais justa daquilo a que assistimos (aviso importante: é bom ter um lenço por perto, o choro é quase inevitável).

Sobre os fatos reais… há diversas expeculações sobre a vida do real James Barrie, alguns dizem que era pedófilo, outros que era homossexual. Ainda que tenha se casado, não foi feliz. Nunca se recuperou da trágica morte de seu jovem irmão e da ausência de afeto de sua mãe. Sylvia Davies não era viúva e seu marido Arthur foi assistir à estréia da peça com ela (sobre essa específica frase, agradeço à “Enciclopédia Livre”). Barrie e Sylvia, de fato, eram grandes amigos, o que desagradava o marido dela. Quando eles faleceram, à pedido de Sylvia, Barrie passou a ser uma espécie de tutor de seus filhos. Dez anos antes de sua morte, ele sensivelmente doou os direitos autorais de sua obra para um hospital londrino voltado para crianças (ou seja, ainda hoje, toda vez que sua “história” é utilizada, o hospital recebe a merecida quantia financeira – seria ótimo se todos o seguissem). Dito isso, voltemos ao filme.

Winslet e DeppO diretor, Marc Forster, tem quatro estrelas do cinema (Kate Winslet, Johnny Depp, Dustin Hoffman e Julie Christie), uma história cativante para mostrar, uma trilha sonora fantástica, a verba hollywoodiana, e o talento para não transformar tudo isso numa esparrela melosa. Em suas mãos, quando escutamos que “cada vez que uma criança diz: ‘eu não acredito em fadas’, em algum lugar uma pequena fada cai morta no chão”, nós acreditamos (aflitos). Se diz que bater palmas faz com que elas renasçam, nós batemos. “A Terra do Nunca” indicada por ele é um local que pode pertencer a todos nós, não apenas ao seu idealizador. É uma digna homenagem ao criador do menino que não quer crescer. O escritor provavelmente também não o quisesse – mas se conseguisse esse insólito feito deixaria o mundo mais pobre com a ausência de seus personagens. Falando em personagens, e Wendy? De onde teria surgido essa graciosa mocinha? A resposta não parece tão importante. Bem mais importante é a relação da mesma com Peter Pan.

Barrie e PeterO amor deles é um amor pueril, um amor de criança, sem as brigas e amarguras dos amores adultos. Quando Wendy decide voltar para sua família, crescer, tornar-se adulta, Peter Pan não pode acompanhá-la. Não pode, não “quer”. Fará visitas e entrará em seu quarto sempre que ela deixar a janela aberta, em silêncio, sem saber dos trâmites da vida como o sabemos. O homem que era/é Peter Pan se chama James Barrie, Wendy é apenas uma coadjuvante para mostrar a frustração solitária dele. Peter Pan não conhece o amor dos adultos que Wendy conhecerá. O herói da história criada não beija a mocinha e não morre no final. Ele não precisa, posto que “quando o primeiro bebê riu pela primeira vez, o riso se despedaçou em milhares de partes e todas elas se espalharam, foram saltando… e assim nasceram as fadas”. Aplausos!

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“O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (Tim Burton e Johnny Depp)

Posted by Zadoque Filho on sábado jun 26, 2010 Under Em pauta

Sweeney ToddFinalmente algumas considerações sobre o genial Tim Burton (de “Edward Mãos de Tesoura”, “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”, “Ed Wood”, “A Noiva Cadáver”, “O Estranho Mundo de Jack”… e a recente adaptação de “Alice no País das Maravilhas”, entre outros). O diretor é um daqueles (tal como M. N. Shayamalan) cujo nome basta ser citado para que desejemos assistir ao seu filme e, no seu caso, saibamos que o impecável ator Johnny Depp estará presente. Aliás, se alguém descobrir como Depp – agora eternizado por Jack Sparrow, do excelente “Piratas do Caribe” – consegue ser tão bom, por favor, avise. Avise, uma vez que os bons adjetivos deste blog estão ficando repetitivos e começará a ser necessário citar péssimos filmes para equilibrar os posts. Em “O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (Sweeney Todd, 2007), o protagonista Benjamin Barker vive feliz com sua esposa (Lucy) e pequena filha (Johanna) até que o inescrupuloso Juiz Trupin decide acusá-lo injustamente de um crime e exilá-lo para tentar consquistar o amor de Lucy.

BarbeariaO filme é um musical de suspense/terror ambientado em Londres, com o aspecto sombrio tão comum aos filmes do diretor, e conta com a participação de sua esposa (Helena Carter, a saber, a Rainha Vermelha do filme “Alice”) no papel da Sra. Lovett… com quem Barker se une, 15 anos depois da tragédia de que foi vítima, quando retorna de seu exílio usando o pseudônimo Sweeney Todd. O filme é cinza, de um preto e cinza apenas completamente alterado pelo vermelho berrante do sangue que é jorrado em abundância (até comicamente) através dos vários assassinatos cometidos pelo protagonista, que instala sua barbearia acima do restaurante de Lovett. Humor-negro de Burton: a carne dos assassinados pelo barbeiro passa a ser servida nas tortas de sua aliada, fazendo com que os desavisados clientes apreciem com gosto o novo “tempero” e enriqueçam a dupla.

NavalhaA navalha de Todd impõe respeito e admiração. Afinal o melhor barbeiro da cidade é também o assassino mais certeiro e musical que poderia haver. A mistura suspense-terror-musical que é o filme contribui para a criação do clima como um todo. Os braços do protagonista se completam com a navalha, do mesmo jeito que as letras das músicas cantadas fascinam pela união com o “pálido” enredo (pálido no melhor sentido, que fique bem claro: pálido enquanto estética do diretor). Johnny Depp canta – para nosso espanto e quase talvez do próprio ator. Seus lábios abrem minimamente, mas sua voz é contundente (recursos tecnológicos à parte). Ele sabe fazer as coisas, esse rapaz. Ao mesmo tempo: é o “macho-alfa” mais delicado que pode haver, em “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”, com toques de feminilidade que não corrompem sua masculinidade; e o pueril Edward que nos faz chorar, em “Edward Mãos de Tesoura” (a trilha sonora é poderosa e a “fábula” é comovente), capaz até de fazer nevar numa cidadezinha tropical.

Delírio/HilárioAtravés do protagonista de “O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” talvez vislumbremos que fazer nevar ou fazer sangrar sejam habilidades bem próximas. Sempre sarcástico, uma adorável cena é oferecida enquanto a Sra. Lovett passa a sonhar com um futuro romântico com Todd, ao tempo que ele permanece a mesma figura estranha e alheia frente ao absurdo e hilário delírio da mesma. Tim Burton “brinca” com sua estética e com nosso gosto por ela. O filme é entretenimento de boa qualidade, diverte sem ambições épicas, é filmado de forma agradável, convoca os expectadores a serem partícipes de uma ética sanguinária, não precisa de uma “moral da história” no final. O diretor deixa suas pistas nos filmes que realiza, certa vez escutamos: “se a emoção enfeitiça, a razão também enfeitiça”. Verdade, a racionalidade também possui um poder implacável de nos cegar como que por feitiço. Assistindo ao filme que dá título a este post, vemos que a vingança desempenha o mesmo papel. Só não é o momento de julgar nada e ninguém, o momento é de aceitar um ótimo filme (bem realizado, sangrento, visualmente impecável), não problematizar a vida, e apenas passar a ter cuidado com quem deixamos fazer a nossa barba.

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“Pecados Íntimos” e Kate Winslet

Posted by Zadoque Filho on terça-feira jun 22, 2010 Under Em pauta

Pecados ÍntimosEm seu segundo filme como diretor (o primeiro foi “Entre Quatro Paredes”), Todd Field realiza um drama psicológico de grande competência e pulso forte com “Pecados Íntimos” (Little Children, 2006). Kate Winslet, no papel de Sarah, vive um mau casamento em uma vida sem graça. As coisas mudam quando conhece o também casado Brad (Patrick Wilson) e eles comecem a viver um romance extra-conjugal. Baseado no livro “Criancinhas” de Tom Perrotta, o título original do filme é bem mais adequado ao que é proposto pela trama: a frustração dos protagonistas por não terem a vida que sonharam, o medo de assumirem responsabilidades, as expectativas insólitas para mudarem seus destinos, a inabilidade para lidarem com problemas adultos. O filme tem um ótimo roteiro, a narrativa possui uma capacidade de análise sobre os personagens intrigante e perspicaz – satírica, nunca sob o peso de vorazes julgamentos éticos.

Kate WinsletÉ preciso ressaltar: Winslet é sempre sensual, mesmo quando não quer. Excelente atriz, ganhou o Oscar por sua interpretação em “O Leitor” (The Reader, 2008, filme igualmente adorável) após várias indicações. Em “Pecados Íntimos”, supostamente desprovida da beleza da esposa de Brad (Jennifer Connelly)… mesmo com sua vaidade esquecida e unhas dos pés pintadas com um infantil azul-dona-de-casa, continua mais bonita. O filme tem cenas picantes, mas não constrange porque não é invasivo, revelando suas intimidades e as nossas no tempo adequado, alternando os episódios sexuais e as auto-sabotagens dos personagens com os espontâneos episódios em que os filhos dos protagonistas estão brincando. Tudo, afinal, seria uma “brincadeira” se não fossem a crítica social e a presença de um pedófilo no bairro em que vivem. “Em algum momento as coisas precisam mudar”, diz o narrador. Para todos, nós entendemos, mas sobretudo para nós – expectadores -, uma vez que a principal e mais irônica mudança, no filme, não se manifesta em seus dois protagonistas. Sarah e Brad são largados à própria sorte, suas vidas saem de cena quando já começamos a pressupor que ambos continuarão impotentes diante das escolhas (erradas ou não) que um dia tomaram e cotidianamente voltarão a tomar.

De fato somos nocauteados pela inércia final de suas “histórias”. Não se pode dizer, todavia, que seja um encorajamento para que o público se sinta estimulado a mudar suas escolhas assim que puder. Nesse caso seria uma observação óbvia demais! Depois de um tempo que sobem os créditos nos sentimos pasmos com a fatalista realidade: não seremos capazes de mudar absolutamente nada em nossas vidas (ao menos na maior parte das vezes). Eis a mais aguda análise psicológica sobre quem somos apresentada pelo filme. E agora? Agora não podemos esquecer nossa impotência, justificada pelos menos racionais motivos, e devemos aceitar as condições de sermos quem somos! Algum problema, afinal, em reconhecermos isso? A vida não é filme, não temos a garantia de que nossos melhores ângulos serão filmados – em geral não são- , não temos uma sinopse que nos explique com clareza, nossos fracassos não serão aplaudidos e nem serão recompensados com um Oscar. Ao fim, somos apenas a vazia platéia de nós mesmos.

DivaContudo é muito bom (re)descobrir essa verdade através de Kate Winslet (também nos filmes “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, “Almas Gêmeas”, “Foi Apenas um Sonho”, “Razão e Sensibilidade”, “Em Busca da Terra do Nunca”…). A mocinha de “Titanic” cresceu, apurou sua sexualidade, descobriu os defeitos de Jack, entendeu que precisa usar tamanho G, esteve sozinha por escolha própria ou mera casualidade, fingiu nos abandonar para que festejássemos seu regresso, usou sua cultura para nos fazer supor mais cultos, escolheu a hora de ser homossexual e a de ser mulher arrasa-quarteirão (sem que as opções sejam excludentes). Winslet é magistral, seduz a própria câmera, faz com que escolhamos as suas escolhas de modo sutil, faz valer suas premiações enquanto atriz e o espaço que ocupa no mundo real. Caso alguém se pergunte sobre a razão de tantos elogios, é aconselhável verificar sua filmografia. A contemporaneidade possui uma grande Diva e não precisa esperar sua morte para conferir abundantes homenagens a ela.

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Três filmes “clássicos” de Alejandro Amenábar

Posted by Zadoque Filho on segunda-feira jun 21, 2010 Under Em pauta

Abre los OjosDiretor dos três filmes que este post comentará, Alejandro Amenábar (chileno erradicado na Espanha) é mais um exemplo de que o cinema respira muito bem do outro lado das cercas hollywoodianas. Seu filme “Preso na Escuridão” (Abre los Ojos, 1997) deu origem ao estreladoVanilla Sky” (com Tom Cruise, Penélope Cruz – presente em ambos -, Cameron Diaz), que suaviza o papel mulherengo do protagonista, e deixa mais simples as lacunas deixadas para serem preenchidas pelo expectador. Ambos são ótimos, há de ser sincero, mas a produção hollywoodiana se mostra naturalmente mais “limpa”/”parcial” em prol das condições do personagem que precisa lidar com uma nova vida em que seu rosto está desconfigurado após um acidente de carro. Em “Vanilla Sky” a tragédia humana, estética e futurista de Amenábar se transforma na inquietação apenas estética e futurista… comum à nossa contemporaneidade. Que fique claro: saber a origem do filme é muito importante, mas “Vanilla Sky” é melhor – ainda que muitíssimo menos sincero.

Os OutrosJá “Os Outros” (The Others, 2001), com Nicole Kidman, correu o risco de cair na obviedade depois do impecável “O Sexto Sentido” (do gênio indiano Shayamalan), só que o diretor sustenta bem aqueles medos primários que todos temos (barulhos inexplicáveis, vultos e sombras, portas entreabertas, escuridão, etc.), com uma trama sobrenatural enigmática, aparentemente neurótica, progressivamente misteriosa, gerando incontidas desconfianças no espectador. É um suspense revelador, daqueles que nos fazem sair do cinema pensando se de fato somos os protagonistas de nossas “vidas”, com um final inspirador que não destoa do tom do filme como um todo (algo arriscado de se tentar fazer, mas eficaz nesse caso).

Mar AdentroPor fim, o adorável “Mar Adentro” (Mare Dentro, 2004), com o irreconhecível Javier Bardem no papel de Ramón Sampedro, baseado em fatos reais sobre a delicada questão da eutanásia. Após sofrer um acidente de mergulho, o protagonista fica tetraplégico e se torna um defensor da legalidade jurídica de darmos fim às nossas vidas em situações como a que ele se encontra. O fato de concretizar seu intuito, mesmo sem autorização legal, chamou atenção no começo da década. Afinal, enquanto tetraplégico, jamais poderia conseguir fazê-lo sozinho. Dias depois das primeiras investigações policiais, a delegacia recebeu centenas de cartas de pessoas comuns – totalmente desconhecidas de Sampedro – “confessando” a ajuda na morte dele (defensores da causa). O filme é delicado, tocante, bem-humorado, está longe de ser um dramalhão choroso. Triste, não trágico. Convincente: mais do que uma adaptação sobre fatos reais… um filme com identidade própria, diálogos inteligentes e corajosos, cenas e trilha sonora memoráveis. Emocionante, quase evitando muito bem qualquer partidarismo.

Mar AdentroVencedor do Globo de Ouro e do Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, um dos momentos impecáveis da “película” é quando o protagonista se levanta, ao som de uma das mais conhecidas árias de Puccini (sim, Puccini, e agora se torna inevitável – ao rever – consolidar o motivo de meu mais recente hábito), coloca os pés no chão, puxa a cama duas vezes – nem uma e nem três, exatas duas vezes – até que a mesma saia de cena. A câmera se posiciona atrás da porta do quarto de Ramón, vemos ele caminhar em nossa direção, escutamos sua respiração ofegante. Ele pega impulso, olha a janela e corre para saltar por ela. Voamos com o protagonista pelas montanhas, a música se faz mais alta, vemos o mar e vemos Julia (Bélen Rueda, a mesma de “O Orfanato”), somos miúdos diante do encontro deles,  e… ahhh… é preciso ver para sentir como é possível desnudar uma mulher por completo mesmo baixando apenas parte das mangas de seu casaco. Ele sorri ao beijá-la (ele sorri, caros leitores, com a felicidade de quem é presenteado por um inusitado mimo) enquanto nossa visão é ofuscada por um raio de sol. O vinil pára de tocar e infelizmente somos acordados, personagem e espectadores, do devaneio experimentado.

Em tempo, eu também ajudei Ramón Sampedro a dar cabo de sua própria vida.

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José Saramago (1923-2010)

Posted by Zadoque Filho on segunda-feira jun 21, 2010 Under Em pauta

José SaramagoNasce, na freguesia de Azinhaga (Portugal), José de Sousa Saramago. Ele ainda não sabe, mas terá uma juventude pobre, será serralheiro e, por não ter condições financeiras para uma formação acadêmica, ocupará várias de suas noites lendo na Biblioteca Municipal de Lisboa. Será também tradutor e funcionário público. Trabalhará em jornais como o Diário de Lisboa até ser demitido durante a Revolução dos Cravos. Decidirá, então, dedicar-se apenas a literatura. Ele também ainda não sabe, mas terá duas esposas e uma filha. Redescobrirá o amor após os 60 anos de idade, escreverá livros memoráveis como “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” – subvertendo espantosamente os acontecimentos do Novo Testamento bíblico com seu texto absolutamente particular, e será o primeiro escritor da lingua portuguesa a ganhar o Nobel de Literatura.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo“Cético” não será um adjetivo apropriado. Ateu, comunista, politicamente engajado, defensor de uma maior relação entre Portugal e Espanha (iberismo), sensível aos pequenos detalhes da vida, ciente da necessidade de termos momentos de tristeza para pensarmos melhor sobre nossa condição humana e social: por isso não será, em definitivo, um cético. Acreditará na humanidade, terá paciência para ver pequenos botões se transformarem em flores, gostará de ver as ondas do mar gelado em Lanzarote (Espanha) sozinho ou ao lado de sua esposa, sentará em sua cadeira favorita para refletir incansavelmente, jamais parará de escrever, será possuidor de uma capacidade de pensar em voz alta com a calma de quem parece desconhecer o passar dos minutos. Tal como os longos parágrafos de seus futuros livros, não precisará de uma pontuação gramaticalmente conhecida (exclamações, traveções, interrogações) para manifestar o que sente e o que deixa de sentir.

Sofrerá, sim, do início ao final dos 87 anos de vida que serão seus. Sofrerá por discordar do gorveno de sua terra natal, pela rejeição da mesma, pela ignorância de um mundo que não o lerá e mesmo assim o julgará sem piedade (inclusive os cristãos que, algumas vezes, parecem ser os primeiros a esquecer essa palavra). Seus mais íntimos choros e sorrisos, contudo,  não serão do conhecimento dos leitores ou entrevistadores. Mesclados em seus textos, apenas uma parte de seus segredos será revelada. Todos saberão sua biografia e seu hábito de repousar o dedo indicador das mãos na face enquanto pensa, na mesma medida em que não tomarão conhecimento das sandálias que preferirá calçar ou se gostará de mastigar os grãos de açúcar não diluídos na xícara de café. Se bem que nem o jovem ou o maduro Saramago, em seu eficaz fervor ideológico, poderá imaginar as conquistas mundiais ainda tão distantes.

Ensaio Sobre a Cegueira Seu livro “Ensaio Sobre a Cegueira” se tornará filme, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles (do popular “Cidade de Deus” e do excelente “O Jardineiro Fiel”). Para um blog dedicado a discussões sobre cinema, agora fica justificado o post. Enquanto filme, não se pode dizer que será um clássico ou uma adorável adaptação. Despertará curiosidade, será angustiante, mas obedecerá as etapas clichês de filmes do gênero. Como no livro, a cegueira não será escura: será branca. A narrativa será fiel a obra e a atriz Juliane Moore (do impecável “Fim de Caso”) salvará algumas cenas. Meirelles nem terá tanta “culpa”, uma vez que o livro, mesmo nos fazendo ter importantes reflexões, não chegará a ser brilhante – mas será melhor do que “Todos os Nomes”, cujo estilo quase parecerá uma tentativa de imitação da obra kafkiana.

Entre tantas outras, uma das penas é que o autor nunca saberá que numa tarde comum um adolescente dobrará a última página de um de seus livros e, de tão encantado, ficará de pé e o aplaudirá… no meio de uma biblioteca cheia de pessoas desconhecidas. Tampouco saberá que o mesmo guardará na memória várias de suas frases e imagens criadas. Contudo, por mais estranho que possa parecer, Saramago terá a surpreendente capacidade de saber, desde sua mais inocente idade, um segredo que é omitido para a maioria dos indivíduos: ele saberá como não morrer, ainda que decida não fazer uso disso para, caprichosamente, deixar até a própria Morte constrangida.

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