“Pecados Íntimos” e Kate Winslet

Posted by Zadoque Filho on terça-feira jun 22, 2010 Under Em pauta

Pecados ÍntimosEm seu segundo filme como diretor (o primeiro foi “Entre Quatro Paredes”), Todd Field realiza um drama psicológico de grande competência e pulso forte com “Pecados Íntimos” (Little Children, 2006). Kate Winslet, no papel de Sarah, vive um mau casamento em uma vida sem graça. As coisas mudam quando conhece o também casado Brad (Patrick Wilson) e eles comecem a viver um romance extra-conjugal. Baseado no livro “Criancinhas” de Tom Perrotta, o título original do filme é bem mais adequado ao que é proposto pela trama: a frustração dos protagonistas por não terem a vida que sonharam, o medo de assumirem responsabilidades, as expectativas insólitas para mudarem seus destinos, a inabilidade para lidarem com problemas adultos. O filme tem um ótimo roteiro, a narrativa possui uma capacidade de análise sobre os personagens intrigante e perspicaz – satírica, nunca sob o peso de vorazes julgamentos éticos.

Kate WinsletÉ preciso ressaltar: Winslet é sempre sensual, mesmo quando não quer. Excelente atriz, ganhou o Oscar por sua interpretação em “O Leitor” (The Reader, 2008, filme igualmente adorável) após várias indicações. Em “Pecados Íntimos”, supostamente desprovida da beleza da esposa de Brad (Jennifer Connelly)… mesmo com sua vaidade esquecida e unhas dos pés pintadas com um infantil azul-dona-de-casa, continua mais bonita. O filme tem cenas picantes, mas não constrange porque não é invasivo, revelando suas intimidades e as nossas no tempo adequado, alternando os episódios sexuais e as auto-sabotagens dos personagens com os espontâneos episódios em que os filhos dos protagonistas estão brincando. Tudo, afinal, seria uma “brincadeira” se não fossem a crítica social e a presença de um pedófilo no bairro em que vivem. “Em algum momento as coisas precisam mudar”, diz o narrador. Para todos, nós entendemos, mas sobretudo para nós – expectadores -, uma vez que a principal e mais irônica mudança, no filme, não se manifesta em seus dois protagonistas. Sarah e Brad são largados à própria sorte, suas vidas saem de cena quando já começamos a pressupor que ambos continuarão impotentes diante das escolhas (erradas ou não) que um dia tomaram e cotidianamente voltarão a tomar.

De fato somos nocauteados pela inércia final de suas “histórias”. Não se pode dizer, todavia, que seja um encorajamento para que o público se sinta estimulado a mudar suas escolhas assim que puder. Nesse caso seria uma observação óbvia demais! Depois de um tempo que sobem os créditos nos sentimos pasmos com a fatalista realidade: não seremos capazes de mudar absolutamente nada em nossas vidas (ao menos na maior parte das vezes). Eis a mais aguda análise psicológica sobre quem somos apresentada pelo filme. E agora? Agora não podemos esquecer nossa impotência, justificada pelos menos racionais motivos, e devemos aceitar as condições de sermos quem somos! Algum problema, afinal, em reconhecermos isso? A vida não é filme, não temos a garantia de que nossos melhores ângulos serão filmados – em geral não são- , não temos uma sinopse que nos explique com clareza, nossos fracassos não serão aplaudidos e nem serão recompensados com um Oscar. Ao fim, somos apenas a vazia platéia de nós mesmos.

DivaContudo é muito bom (re)descobrir essa verdade através de Kate Winslet (também nos filmes “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, “Almas Gêmeas”, “Foi Apenas um Sonho”, “Razão e Sensibilidade”, “Em Busca da Terra do Nunca”…). A mocinha de “Titanic” cresceu, apurou sua sexualidade, descobriu os defeitos de Jack, entendeu que precisa usar tamanho G, esteve sozinha por escolha própria ou mera casualidade, fingiu nos abandonar para que festejássemos seu regresso, usou sua cultura para nos fazer supor mais cultos, escolheu a hora de ser homossexual e a de ser mulher arrasa-quarteirão (sem que as opções sejam excludentes). Winslet é magistral, seduz a própria câmera, faz com que escolhamos as suas escolhas de modo sutil, faz valer suas premiações enquanto atriz e o espaço que ocupa no mundo real. Caso alguém se pergunte sobre a razão de tantos elogios, é aconselhável verificar sua filmografia. A contemporaneidade possui uma grande Diva e não precisa esperar sua morte para conferir abundantes homenagens a ela.

One Response to ““Pecados Íntimos” e Kate Winslet”

  1. Bia amaral Says:

    ola parceiro bom trabalho, era exatamente isso que procurava

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