“Em Busca da Terra do Nunca” (Kate Winslet e Johnny Depp)
Posted by Zadoque Filho on segunda-feira jun 28, 2010 Under Em pauta
E então uniram ambos, Winslet e Depp, no “Em Busca da Terra do Nunca” (Finding Neverland, 2004). Baseado no livro “O Homem que era Peter Pan”, inspirado em fatos reais sobre a vida do escritor James Barrie, e dirigido por Marc Forster (do recente “O Caçador de Pipas”). Um filme sobre a vida do autor de “Peter Pan” e a concepção de seus personagens poderia cair no clichê pseudo-comovente mais tosco: o que não acontece, não mesmo. Como se não bastassem essas duas estrelas (além dos notórios Dustin Hoffman e Julie Christie), o enredo é admirável, e mais uma vez retorno aos filmes comoventes. O objetivo era evitar o gênero, mas ter lembrado deste, além de coincidentemente ter postado comentários sobre os atores recentemente – aquilo que chamam “destino” é f*** -, tornou as coisas complicadas. Forster opera um milagre cinematográfico, mescla momentos factuais com momentos imaginados pelo protagonista como um maestro que sabe a hora certa em que cada instrumento musical deve começar a tocar.
Desde o início temos uma noção de como vai ser. O jovem Peter, um dos quatro filhos da viúva Sylvia Davies (Kate Winslet), é uma criança reservada e cética, “deseja crescer logo por julgar que os adultos não sentem dor”. James Barrie (Johnny Depp), em uma de suas longas manhãs no parque da cidade, decide fazer uma apresentação “circense” para a família Davies com seu cachorro desempenhando o papel de um perigoso urso. “É apenas um cachorro”, diz Peter. O protagonista, cujo tato com crianças é indiscutivel, pondera: “aquele cachorro passou a vida inteira querendo ser um urso, não diga que ele não poder ser um”. A cena intercala a imagem da dança do personagem com seu cachorro e a imagem de um circo em que o personagem está dançando com um urso. Utilização tão constante quanto adorável no filme. Aliás, a câmera desempenha um papel muito eficaz: quando a peça final está sendo encenada, ela dá giros e faz curvas no teatro, repousa no teto, voa por cima da platéia, desconstrói nossa racionalidade… até focalizar Peter, agora já encantado com o poder da ficção (da imaginação).
Diálogos maduros, frases inesquecíveis (“crianças não deveriam dormir nunca, porque a cada manhã ficam mais velhas”), flagrantes gentis dos instantes em que o autor de “Peter Pan” pensa os personagens de seu livro. O cabo da sombrinha da mãe de Sylvia será, futuramente, o gancho do famoso Capitão Gancho; as crianças pulando na cama, saltando de uma para outra, oferece o vislumbre do vôo de que os amigos de Pan serão capazes de realizar. O filme não é a história sobre um romance (inclusive estou evitando, sem exceções, vê-los), todavia é uma história de amor muito emblemática. Amor pelo ato de escrever, amor pela infância, sobretudo amor pela imaginação. “A Terra do Nunca” está diante de nós, o tempo inteiro, ainda que não a vejamos e só possamos fazer suposições sobre a objetiva/palpável existência dela. Jan Kaczmarek compõe uma trilha sonora (vencedora do Oscar) suave e cortante, o piano nos pega desprevenidos a cada mudança de nota, é a expressão não-verbal mais justa daquilo a que assistimos (aviso importante: é bom ter um lenço por perto, o choro é quase inevitável).
Sobre os fatos reais… há diversas expeculações sobre a vida do real James Barrie, alguns dizem que era pedófilo, outros que era homossexual. Ainda que tenha se casado, não foi feliz. Nunca se recuperou da trágica morte de seu jovem irmão e da ausência de afeto de sua mãe. Sylvia Davies não era viúva e seu marido Arthur foi assistir à estréia da peça com ela (sobre essa específica frase, agradeço à “Enciclopédia Livre”). Barrie e Sylvia, de fato, eram grandes amigos, o que desagradava o marido dela. Quando eles faleceram, à pedido de Sylvia, Barrie passou a ser uma espécie de tutor de seus filhos. Dez anos antes de sua morte, ele sensivelmente doou os direitos autorais de sua obra para um hospital londrino voltado para crianças (ou seja, ainda hoje, toda vez que sua “história” é utilizada, o hospital recebe a merecida quantia financeira – seria ótimo se todos o seguissem). Dito isso, voltemos ao filme.
O diretor, Marc Forster, tem quatro estrelas do cinema (Kate Winslet, Johnny Depp, Dustin Hoffman e Julie Christie), uma história cativante para mostrar, uma trilha sonora fantástica, a verba hollywoodiana, e o talento para não transformar tudo isso numa esparrela melosa. Em suas mãos, quando escutamos que “cada vez que uma criança diz: ‘eu não acredito em fadas’, em algum lugar uma pequena fada cai morta no chão”, nós acreditamos (aflitos). Se diz que bater palmas faz com que elas renasçam, nós batemos. “A Terra do Nunca” indicada por ele é um local que pode pertencer a todos nós, não apenas ao seu idealizador. É uma digna homenagem ao criador do menino que não quer crescer. O escritor provavelmente também não o quisesse – mas se conseguisse esse insólito feito deixaria o mundo mais pobre com a ausência de seus personagens. Falando em personagens, e Wendy? De onde teria surgido essa graciosa mocinha? A resposta não parece tão importante. Bem mais importante é a relação da mesma com Peter Pan.
O amor deles é um amor pueril, um amor de criança, sem as brigas e amarguras dos amores adultos. Quando Wendy decide voltar para sua família, crescer, tornar-se adulta, Peter Pan não pode acompanhá-la. Não pode, não “quer”. Fará visitas e entrará em seu quarto sempre que ela deixar a janela aberta, em silêncio, sem saber dos trâmites da vida como o sabemos. O homem que era/é Peter Pan se chama James Barrie, Wendy é apenas uma coadjuvante para mostrar a frustração solitária dele. Peter Pan não conhece o amor dos adultos que Wendy conhecerá. O herói da história criada não beija a mocinha e não morre no final. Ele não precisa, posto que “quando o primeiro bebê riu pela primeira vez, o riso se despedaçou em milhares de partes e todas elas se espalharam, foram saltando… e assim nasceram as fadas”. Aplausos!
agosto 2nd, 2010 at 15:57
seu blog e muito bom parabens
agosto 16th, 2010 at 18:35
Obrigado, mestre. Volte sempre! Z-.