E sobem os créditos…

Posted by Zadoque Filho on terça-feira jul 13, 2010 Under Em pauta

CinemaNo teatro costuma-se dizer: “cai o pano”, ao término de uma peça. De certa forma este post se refere a algo semelhante. Mas ao contrário de como para aquele a quem dizem “aqui jaz fulano”, a ficção não precisa de tanta dramaticidade – nem a vida (?). Agora já não se trata de suspense, comédia, romance, terror, drama, ou qualquer que seja o gênero, mesmo que o elogio aqui realizado seja ao cinema como um todo e isso inclua todas as possibilidades de prateleiras. Prefiro assim, eis o réquiem: sabiam, os irmãos Auguste e Louis Lumière, que sua invenção contribuiria tanto para a posterioridade? Sabiam dos trajes clássicos que por muito tempo a platéia usaria, das moedas sem troco de jovens ansiosos na bilheteria, das teorias pensadas por renomados autores de diversas áreas da Academia Universitária, das pessoas colecionando ingressos, dos Cine Clubes criados, da expectativa pelo beijo no final da trama, da aglomeração nas filas para (re)verem o que um dia não passou de “fotografia em movimento”?

Lumière Não precisavam saber. Assustaram os primeiros expectadores historicamente formais com a exibição de simples trabalhadores e de um trem que, de supetão, fez a platéia se levantar das cadeiras com medo de que o mesmo saísse da tela e a atropelasse. Nenhum de nós esteve lá, no dia 28 de Setembro de 1895, mas é fácil imaginar a euforia dos irmãos em seus risos no canto da boca pelo sucesso da mais fantástica magia realizada e tão apurada século XX adentro – aliás, não à toa Georges Méliès, também pioneiro no cinematógrafo, era ilusionista. Todos os movimentos artísticos fizeram uso do cinema, todos os sentimentos humanos foram expostos na telona, todos quiseram ser partícipes do novo mídia. Os melhores heróis e os piores vilões (e o contrário também) ganharam rostos “apaixonantes”. Quem nunca se encolheu na poltrona ao ver um filme, quem nunca se identificou com os problemas e soluções dos personagens exibidos, quem nunca chorou copiosamente ou gargalhou espalhafatosamente no meio de totais desconhecidos, quem nunca sentiu o coração apertado quando os créditos começam a subir e precisamos voltar ao mundo real?

cinemaMais, mais do que isso, quem nunca foi os personagens de Audrey Hepburn, James Stuart, Hillary Swank, Tom Cruise, Jodie Foster, Bruce Willis, Ava Gardner, Gregory Peck, Natalie Portman, Mel Gibson, Kirsten Dunst, Tim Robbins, Julie Andrews, Humphrey Bogart, Elizabeth Taylor, Tom Hanks, Ingrid Bergman, Jerry Lewis, Grace Kelly, John Travolta, Meryl Streep, Edward Norton, Julia Roberts, Harrison Ford, Woopi Goldberg, Jude Law, Cate Blanchet, Robin Williams, Linda Blair, Raplh Fienes, Scarlett Johasson, Marlon Brando, entre outros, tantos outros, e está aí sentado, neste momento, ainda sendo um pouco de cada um deles? Quem não tem uma lembrança cinematográfica vinculada a um momento de vida? Quem não tem na memória a trilha sonora de filmes marcantes? Desconheço essa “entidade”, inclusive me recusaria a conhecê-la, porque não fomos uma vez única o público que se inquietou na cadeira e se deixou levar pelo que assistia. Somos, ainda hoje, como para sempre seremos, emocionalmente atropelados pelo trem dos irmãos Lumière e dos diretores, músicos, roteiristas, atores, de todas as nacionalidades, que sabem quem somos e fazem o melhor uso desse conhecimento.

Viagem à LuaOs créditos finais estão quase subindo, indício de que é chegada a hora de ir embora. Se “cai o pano” é apenas porque essa relação cinema-espectador precisa de um breve espaço de tempo para que uma próxima sessão comece. Depois de tantas interrogações, algumas ousadas afirmações se mostram pertinentes. “A arte não imita a vida”, a arte a recria, cotidianamente, sem os pudores, apenas em suposição, politicamente corretos de esconder defeitos, ou enfeitar ainda mais boas qualidades humanas; assim como é detentora do molde adequado para nos fazer lembrar com lucidez os papéis que desempenhamos na sociedade. Sem afetações, o ponto final deste texto será o meu último. Há um mundo inteiro de boas sensações para serem sentidas, há incontáveis filmes para serem revistos ou vistos pela primeira vez em diversas salas de exibição. Assim colocado, que o “The End” tenha a função de um convite para que todos agucem sua sensibilidade e continuamente se reconheçam nos próximos filmes a que assistirem.

The End Charles Chaplin, entre tantos silêncios e verbalizações, certa vez disse que “o humor desperta o nosso sentido de sobrevivência e preserva nossa saúde mental”. Eu concordo. Mas antes do final, uma espécie de aperitivo do filme que seria comentado em seguida, “A Bela e a Fera” (Beauty and the Beast, 1991), se faz necessário. Sem elogios exagerados, o primeiro desenho indicado ao Oscar de melhor filme é para aqueles que percebem a delicadeza de pequenos gestos, como a Fera presenteando a Bela com sua biblioteca cheia de livros… e a Bela comendo sem usar talheres para não constranger a Fera em sua clara dificuldade: link. Outra faceta do cinema, platéias atentas também costumam aplaudir bons filmes, como se os aplausos pudessem ser escutados pelos seus realizadores. Por isso é bom desconfiar de quem não se comove com as cenas aqui indicadas ou com manifestações tão espontâneas assim. Só que essa “conversa” fica para depois, talvez em outro ambiente. Sem mais, eu digito o ponto final: ponto.

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