“Lisbela e o Prisioneiro” (Guel Arraes)

Posted by Zadoque Filho on segunda-feira jul 5, 2010 Under Em pauta

Lisbela e o PrisioneiroExtraordinário. Antes do que segue, o link deve ser visto: link. Como Guel Arraes consegue? Todos viram? Todos viram como ele faz com que os personagens da “tela do cinema” olhem para os protagonistas do filme a que de fato assistimos? Todos escutaram o tom de voz, o sotaque durante as falas, as metáforas regionais, uma das músicas usadas, o enredo se construindo entre o cinema e o ato de fazer cinema? Agora, com calma, então, podemos continuar. Guel Arraes é poderoso, faz o que faz com o olhar de quem sabe precisamente o que é gostar de cinema: vejam outro link. Adaptado da peça de Osman Lins, Arraes dirige a comédia romântica “Lisbela e o Prisioneiro” (2003) utilizando de todos os recursos (trilha sonora, metalinguagem, simplicidade, atuações de peso dos inquestionáveis Selton Mello, Débora Falabella, Marco Nanini, Bruno Garcia) para mostrar – escancarar – que nós também fazemos bom cinema.

Cena FinalAdjetivos positivos saem facilmente. Elza Soares impressiona ao revisitar a música Espumas ao Vento com sua garganta privilegiada e vibrante. Mais, bem mais, ela declama a letra tão interpretada por Fagner com uma dor inédita e justificavelmente exagerada. Caetano Veloso destrói/reconstrói as caixas acústicas das salas de exibições cinematográficas com sua pergunta: “agora… que faço eu da vida sem você?”. Los Hermanos também figuram lá, assim como Geraldo Maia e A Deusa da Minha Rua. Lirinha, de O Cordel do Fogo Encantado, berra para que todos saibamos que o amor é filme… e é bom. Esse é o cinema que conhece o cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama, confessa que Deus é espectador, conversa conosco o tempo inteiro num exercício impiedoso de mostrar que sabe quem somos e de explorar cada espaço de nosso imaginário sem deixar que a realidade se transforme num horizonte em fuga. Guel Arraes é dinâmico, entende, como poucos, o valor das frases pronunciadas, a dose adequada de humor, o jeitinho nordestino, os estereótipos corretos, o melhor caminho para “dialogar” com quem assiste ao seu filme.

LisbelaDesde a estréia, “Lisbela e o Prisioneiro” sabia que espectadores ficariam sentados nas suas poltronas mesmo depois de subirem os créditos, impactados, chorosos, letárgicos, apaixonados. Com parte das filmagens realizada aqui no Pátio de Santa Cruz, conhecer o elenco foi fácil. Cenas bem-humoradas filmadas com total seriedade, atores compenetrados, refeições numa espécie de galpão improvisado, figurantes inquietos, a cena em que Leléu e Frederico se descobrem como tal e qual e eu pude ver por detrás das câmeras (será que ver Mello e Nanini encenando conta algum tijolo na casinha do céu?), e um gênio daquilo que é nosso cinema. Às favas para com a modéstia ou alusões sobre o cinema internacional: nós sabemos ser ótimos. Avisem a Arraes que cantarolamos a trilha sonora escolhida ainda hoje com a mesma empolgação e nos emocionamos com seu filme porque ele é ótimo, não por uma comum tendência ao drama em que quase tudo termina sendo na vida.

Leléu e Lisbela Lisbela faz uma das melhores descrições sobre o que é estar numa sala de exibição cinematográfica. Al Pacino, em “Um Dia Para Relembrar” (Two Bits, 1995), estava certo: “o paraíso é igualzinho ao La Paloma” (a saber, o La Paloma é um cinema). A mocinha comove através de seu ar inocente com a mesma eficiência que o faz através de sua bombástica coragem: ela é capaz de dizer que sempre atenderá – como um cachorrinho – quando o amor a chamar, ela torna as cenas mais simples em cenas épicas quando está com Leléu. As certezas inabaláveis desse último, inclusive, vêm de saber fazer um momento ser tão bom que se pode comemorá-lo pelo resto da vida. Que adorável! O filme é assim… aceitamos de bom grado até o matador Frederico, posto que “se o próprio Deus quis que a morte fosse certa, deveria tomá-lo como um aliado seu”. Lembrando tudo isso, assim de uma só vez, é preciso dizer que saímos mais felizes depois da sessão de cinema. A cumplicidade filme-espectador promovida pela estética usada por Arraes funciona. Nós estamos lá, exibidos no telão, e o enredo fica em nós pelo tanto de “sempre” que desejarmos conferir à palavra.

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