“O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (Tim Burton e Johnny Depp)

Posted by Zadoque Filho on sábado jun 26, 2010 Under Em pauta

Sweeney ToddFinalmente algumas considerações sobre o genial Tim Burton (de “Edward Mãos de Tesoura”, “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”, “Ed Wood”, “A Noiva Cadáver”, “O Estranho Mundo de Jack”… e a recente adaptação de “Alice no País das Maravilhas”, entre outros). O diretor é um daqueles (tal como M. N. Shayamalan) cujo nome basta ser citado para que desejemos assistir ao seu filme e, no seu caso, saibamos que o impecável ator Johnny Depp estará presente. Aliás, se alguém descobrir como Depp – agora eternizado por Jack Sparrow, do excelente “Piratas do Caribe” – consegue ser tão bom, por favor, avise. Avise, uma vez que os bons adjetivos deste blog estão ficando repetitivos e começará a ser necessário citar péssimos filmes para equilibrar os posts. Em “O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (Sweeney Todd, 2007), o protagonista Benjamin Barker vive feliz com sua esposa (Lucy) e pequena filha (Johanna) até que o inescrupuloso Juiz Trupin decide acusá-lo injustamente de um crime e exilá-lo para tentar consquistar o amor de Lucy.

BarbeariaO filme é um musical de suspense/terror ambientado em Londres, com o aspecto sombrio tão comum aos filmes do diretor, e conta com a participação de sua esposa (Helena Carter, a saber, a Rainha Vermelha do filme “Alice”) no papel da Sra. Lovett… com quem Barker se une, 15 anos depois da tragédia de que foi vítima, quando retorna de seu exílio usando o pseudônimo Sweeney Todd. O filme é cinza, de um preto e cinza apenas completamente alterado pelo vermelho berrante do sangue que é jorrado em abundância (até comicamente) através dos vários assassinatos cometidos pelo protagonista, que instala sua barbearia acima do restaurante de Lovett. Humor-negro de Burton: a carne dos assassinados pelo barbeiro passa a ser servida nas tortas de sua aliada, fazendo com que os desavisados clientes apreciem com gosto o novo “tempero” e enriqueçam a dupla.

NavalhaA navalha de Todd impõe respeito e admiração. Afinal o melhor barbeiro da cidade é também o assassino mais certeiro e musical que poderia haver. A mistura suspense-terror-musical que é o filme contribui para a criação do clima como um todo. Os braços do protagonista se completam com a navalha, do mesmo jeito que as letras das músicas cantadas fascinam pela união com o “pálido” enredo (pálido no melhor sentido, que fique bem claro: pálido enquanto estética do diretor). Johnny Depp canta – para nosso espanto e quase talvez do próprio ator. Seus lábios abrem minimamente, mas sua voz é contundente (recursos tecnológicos à parte). Ele sabe fazer as coisas, esse rapaz. Ao mesmo tempo: é o “macho-alfa” mais delicado que pode haver, em “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”, com toques de feminilidade que não corrompem sua masculinidade; e o pueril Edward que nos faz chorar, em “Edward Mãos de Tesoura” (a trilha sonora é poderosa e a “fábula” é comovente), capaz até de fazer nevar numa cidadezinha tropical.

Delírio/HilárioAtravés do protagonista de “O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” talvez vislumbremos que fazer nevar ou fazer sangrar sejam habilidades bem próximas. Sempre sarcástico, uma adorável cena é oferecida enquanto a Sra. Lovett passa a sonhar com um futuro romântico com Todd, ao tempo que ele permanece a mesma figura estranha e alheia frente ao absurdo e hilário delírio da mesma. Tim Burton “brinca” com sua estética e com nosso gosto por ela. O filme é entretenimento de boa qualidade, diverte sem ambições épicas, é filmado de forma agradável, convoca os expectadores a serem partícipes de uma ética sanguinária, não precisa de uma “moral da história” no final. O diretor deixa suas pistas nos filmes que realiza, certa vez escutamos: “se a emoção enfeitiça, a razão também enfeitiça”. Verdade, a racionalidade também possui um poder implacável de nos cegar como que por feitiço. Assistindo ao filme que dá título a este post, vemos que a vingança desempenha o mesmo papel. Só não é o momento de julgar nada e ninguém, o momento é de aceitar um ótimo filme (bem realizado, sangrento, visualmente impecável), não problematizar a vida, e apenas passar a ter cuidado com quem deixamos fazer a nossa barba.

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